sexta-feira, outubro 06, 2006

Para reflexão: Entrevista com Chico Buarque

A cada uma de suas entrevistas, o compositor e cantor Chico Buarque de Holanda sempre surpreende por sua lucidez e enorme coerência. Agora, no lançamento do seu novo CD, Carioca, ele novamente brilhou ao falar sobre a situação política brasileira. A direita deve ter ficado furiosa, com saudades dos tempos da ditadura militar que o perseguiu e censurou; a esquerda "rancorosa" deve ter ficado ressentida com seus irônicos comentários. Já os setores da sociedade que, mesmo críticos das limitações do governo Lula, não perderam a perspectiva, ganharam novo impulso criativo para a sua atuação.

O que será que a imprensa parcial pensará disso, pois Chico não se enquadra em nenhum dos perfis por "eles" rotulados, como pobres comprados pelo assistencialismo, ignorantes, desinformados, enfim, todos aqueles que não são "criticos" o suficiente, como deseja a Globo, a Veja e outros meios de comunicação deste país. Segundo eles, apenas é inteligente, tem senso crítico, quem balança a cabeça em concordância com seus editoriais e suas meias informações.

Seguem alguns trechos das entrevistas com Chico na revista Carta Capital e no jornal Folha de S.Paulo:

Crise Política: É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido, esse escândalo é desastroso. O outro lado da moeda é que disso tudo pode surgir um partido mais correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro (risos). Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do governo mais corrupto da história do Brasil é preciso dizer 'espera aí'. Quando aquele senador tucano canastrão diz que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de ignorante - aí estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso investigar as coisas, sim. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas. A gente sabe que a corrupção no Brasil está em toda parte. E vem agora esse pessoal do PFL, justamente ele, fazer cara de ofendido, de indignado. Não vão me comover...

Preconceito de Classe: O preconceito de classe contra o Lula continua existindo - e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado, eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente para quem agride, porque o sujeito mais humilde ouve e pensa: 'Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?'. Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! - até assassino eu já ouvi.

Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram Lula assumir. 'Agora sai já daí, vagabundo!'. É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu o luxo de ocupar a Casa Grande. 'Agora volta pra senzala!'.

Eu não gostaria que fosse assim. Eu voto no Lula! A economia não vai mudar se o presidente for um tucano. A coisa está tão atada que honestamente não vejo muita diferença entre um próximo governo Lula e um governo da oposição. Mas o país deu um passo importante elegendo Lula. Considero deseducativo o discurso em voga: 'Tão cedo esses caras não voltam, eles não sabem fazer, não são preparados, não são poliglotas'. Acho tudo isso muito grave. Hoje eu voto no Lula. Vou votar no Alckmin? Não vou. Acredito que, apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: 'Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa-sacos'. Ouvi isso dele na última vez que o vi, antes dele tomar posse, num encontro aqui no Rio.

Sobre o PSOL: Percebo nesses grupos um rancor que é próprio dos ex: ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar O adversário do Lula.

Papel da mídia: Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chapa-branca dispostos a defendê-lo a todo custo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para ver quem bate mais.

2 comentários:

Gláucia Burle disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

A visão preconceituosa e partidária realmente tornou-se mais evidente do que nunca nessa eleição porque os candidatos são antagônicos. O Brasil realmente mostrou que os ideais estão bem divididos a população está dividida. E há preconceito, mas não parte só de um lado, mas dos dois.
No entanto o brasileiro ainda tem a ilusão de estar votando neste ou naquele presidente, seu salvador. Quem elege, elege o partido, é bom que isso fique bem claro sempre, comprar um livro pela capa não é bom negócio, nunca foi. O presidente é só uma figura, um garoto propaganda, ganha quem tiver mais carisma, quem souber conquistar melhor a simpatia do eleitorado, fazer mais promessas, mas não é o presidente quem governa, quem elege, elege o partido e, junto com ele, uma equipe que governará. Mas por isso é importante observar o partido que se está colocando no poder, mas ninguém observa... O Brasil já demonstrou, ao reeleger a maior parte dos congressistas corruptos, que não sabe que a eleição mais importante é essa, é a do congresso e ninguém presta atenção. O presidente é só uma figura que promete tudo e não cumpre nada, porque ele não pode, ele só quer conquistar o eleitor para colocar o partido dele no poder, será que nunca vamos aprender isso e continuar sempre nessa eterna ilusão?